Situada entre os contra-fortes das serras do Mar e Paranapiacaba,
nos limites das regiões de Sorocaba e do Vale do Ribeira
Tapiraí foi desmembrada dos municípios de Piedade,
Juquiá e São Miguel Arcanjo.
Nessas terras a presença indígena é irrelevante
tendo noticias de que os Tupis passaram ao longe por não
ousarem enfrentar a Serra do Mar e do Paranapiacaba devido ao frio
existente o que os espantaram..
Os pequenos sinais existentes dessas passagens ficaram gravados
nos topónimos existentes Assungui e Juquiá-Mirim talvez
quando passaram pelo litoral.
Jesuítas por aqui estiveram segundo tradição
oral que na serra da Batêia no rio Verde e no ribeirão
do Ouro deixaram a sua marca mas nada que possa ser comprovado.
1809 - A DOAÇÃO DA SESMARIA
Até l.809 nada de concreto havia acontecido por estas paragens
até que nesse ano são distribuídas várias
Sesmarias ao longo dos rios Turvo e Sarapuí na direção
do litoral.
Uma delas foi destinada a João Escudeiro localizada na margem
esquerda do Rio Turvo consequentemente na Serra do Paranapiacaba
conforme relato do historiador Aluísio de Almeida em seu
livro "História de Sorocaba".
Essa observação "do lado do mar" é
importante porque o Rio Turvo é o divisor atual de Tapiraí
com Piedade e isso demostra que as terras de Escudeiro ficavam portanto
do atual Distrito do Rio Turvo para a atual sede do município
de Tapiraí.
NOVEMBRO DE 1857- I NÍCIO DA COLONIZAÇÃO DO
TURVO
Sobre o início da colonização da nossa terra,
tenho a relatar o que li de Celestino Américo, em suas memórias,
e de Antônio Leite Neto, em seu livro "História
de Piedade", publicado em 1987 pela Editora Culturesp.
Verifiquei que por insistência do Capitão José
Francisco da Rosa, vereador e Presidente da Câmara Municipal
de Piedade, eleito em janeiro de 1857, foi enviado ao Presidente
da Província Paulista alguns pedidos, e entre eles o pedido
de abertura de uma estrada que ligasse Ipanema a Juquiá.
E o início do obra foi autorizada no mesmo ano.
Entusiasmado com o empreendimento, o Capitão se afastou
da presidência da Câmara e assumiu pessoalmente a direção
dos trabalhos, fazendo seu acampamento nas margens direitas do rio
Turvo, com seus escravos e alguns empregados de aluguel. (Isto significa
que Tapiraí teve o início de sua colonização
no ano de 1857, partindo das margens do rio Turvo).
Ao final de novembro, já haviam feito 900 braças
(1980 metros) de roçada por 20 metros de largura e 500 braças
(1100 metros) da cava da estrada; o que ficou em 4:835$400, ou seja,
quase cinco contos de réis.
Em dezembro do mesmo ano, o Capitão juntou mais 20 escravos
pertencentes ao seu filho, um feitor, perfazendo o total de 100
homens acampados em pleno sertão do Turvo. (Talvez no lugar
onde depois foi o armazém do Hiraoka até 1970).
Em abril de 1860, o Capitão voltou a reclamar para que o
pagamento fosse feito de dois em dois meses, para que pudessem trabalhar
continuamente, alegando que já haviam feito 3200 braças
(7040 metros) sentido Ipanema, na enxada até o sítio
do finado Monteiro. (Acredito ser nas imediações do
atual bairro do Miguel Russo).
Além do atraso das verbas, nessa ocasião também
somou-se o reumatismo que apareceu em seu braço. Então
o Capitão resolveu afastar- se dos trabalhos, deixando em
seu lugar o seu filho José Francisco da Rosa Júnior.
O último ofício pedindo pagamento data de 12 de outubro
de 1861, onde ele dizia: "...sentindo a importância da
estrada para o sul com abertura de um porto mais próximo
que o de Santos, deixei o meu sítio, minha lavoura, com meus
escravos e outros trabalhadores que aluguei; enfrentei a frieza
e a umidade do sertão estragando a minha saúde...",
e em 1863 passa uma procuração para seus filhos, Antônio
Claudino da Rosa, Alferes José Francisco da Rosa e José
Francisco da Rosa Júnior, para cuidarem de seus serviços.
Em l.911Celestino Américo Vereador a Câmara municipal
de Piedade pede em Sessão Extraordinária da Câmara
o apoio do Governo da Província para a construção
de uma linha férrea a tração elétrica
partindo do trecho entre Sorocaba e Mairinque até Santo Antônio
do Juquiá passando por Piedade pelo rio Turvo e pela Serra
do Paranapiacaba até chegar ao Santo Antônio do Juquiá.
Essas obras devem ter sido paralisadas logo depois pois só
voltamos a encontrar relato sobre ela na 10ª Administração
Municipal de Piedade, no mês de agosto de 1921, onde diz estar
pronto o primeiro trecho da estrada para Juquiá.
1923 - REUNIÃO DOS MUNICÍPIOS COM O GOVERNADOR DA
PROVÍNCIA
Em 12 de Outubro de 1.923 Celestino Américo Vereador e Laureano
da Silveira Baldy, Prefeito Municipal de Piedade, encaminharam a
mesa do Congresso de Estradas de Rodagem o pedido da construção
da estrada de Sorocaba ao Santo Antônio do Juquiá através
do memorial que a seguir vai transcrito na integra;
ESTRADA PIEDADE - JUQUIÁ
No final da 11ª Administração Municipal de Piedade,
que foi iniciada em 15 de janeiro de 1923, consta como obra mais
importante a conclusão do segundo trecho da estrada.
Celestino Américo fala que o traçado da estrada foi
esboçado por ele mesmo e que defendeu pessoalmente a sua
construção nos Congressos das Estradas de Rodagem
de 1919 e 1923.
Realmente o maior defensor dessa estrada foi Celestino Américo
pois os Jornais da época atestavam isso e de uma Revista
publicada pelo Governo da Província em 1.923 e que reproduzimos
na íntegra o seu memorial defendendo a estrada de Sorocaba
a Santo Antônio do Juquiá e também o parecer
favorável das comissões de estrada s do Estado.
MEMÓRIA
INTRODUÇÃO
Exmo. Snr. Dr. Presidente;
Senhores Congressistas:
Animado pela benevolência do nosso 2º Congresso reunido
em Campinas, em 1º de outubro de 1919, que me dera a honra
excelsa de discutir e aprovar a memória por mim apresentada,
volto hoje novamente a fazer parte desta solene conferência,
impulsionado pelo mesmo ideal de então, convencido inteiramente
das vantagens práticas destes convênios e dominado
pelo mais franco e sincero amor à causa que vimos defendendo,
tanto quanto vós o tendes dos interesses públicos,
em prol dos quaes vindes abnegadamente lutando, para fazer a grandeza
e a prosperidade deste nosso querido Estado.
Senhores, São Paulo é bem digno da vossa proficiente
collaboração. Dos vossos esforços em conjunto
resulta a sua posição fidalga entre os demais Estados
Federados - sob a fulgurante constellação do Cruzeiro,
vista e admirada nos seus mais variados aspectos.
Nos 1º e 2º Congressos de Estradas de Rodagem transpareceram
já promissoramente o interesse, o ardor, a dedicação
e o patriotismo de cada um dos que nelles collaboraram, muito dos
quaes ainda vemos agora nesta majestosa Assembléa, trazendo
a ela o melhor de sua energia e de sua boa vontade, visando sempre
o mesmo escopo. Nessas duas reuniões anteriores, os Prefeitos
Municipais, os dignos membros da Directoria de Obras Públicas,
Associação Permanente de Estradas de Rodagem, grande
número de engenheiros, industriaes e fazendeiros, attendendo
a convocação feita pelo Exmo. Snr. Dr. Cândido
Motta, então illustrado Secretário da Agricultura,
Commércio e Obras Públicas, no patriótico Governo
do Exmo. Snr. Dr. Altino Arantes, com elevação de
vistas, trataram de estudar pela base o problema das estradas de
rodagem em suas múltiplas relações sociais
e econômicas, acllamando una-você ser a viação
de rodagem um dos melhoramentos que mais de perto actuam sobre a
vida diária do povo. Já nessas occasiões foram
apresentadas várias memórias e diversos estudos e
planos de valor de seus rumos, de sua utilidade, de sua construcção,
ligação e conservação. E, creio eu,
serem esses ainda os principaes objetivos que nos vão preocupar
nesta sessão.
Porém, agora, a nossa convicção está
definida, não vacillamos mais, porque já podemos apreciar
os bellos fructos colhidos daqueles esforços brilhantes que
nos relembram os anais dos dois certamens anteriores, não
só pelos mappas e relatórios que hoje nos são
apresentados, como ainda pela prova irrefragável á
luz meridiana, que é o effeito imperativo das magníficas
e bem conservadas estradas de rodagem que se irradiam desta Capital,
accusando o grande passo, o grande avanço que já fizemos
no campo deste nosso idolatrado ideal; justificando sobejamente
o nosso empenho em seguirmos para a frente com vontade firme, como
nos valorosos bandeirantes, levando por toda parte, das mais prosperas
cidades, aos mais longínquos povoados, os benefícios
das boas estradas de rodagem.
Comtudo, não devemos esquecer de que os nossos congressos
rodoviários não teriam fructificado tanto, nem teriam
tido uma acção tão decisiva sobre o automobilismo,
se não tivesse à frente do Governo de São Paulo
estadistas de escol, homens dedicados ao trabalho, cheios de amor
ao povo e à República, principalmente nestes últimos
tempos. No triênnio anterior, foi o Exmo. Snr. Dr. Cândido
Motta que, como Secretário da Agricultura, Commércio
e Obras Públicas, iniciou o desenvolvimento mais racional
da viação de rodagem no interior. Actualmente é
o Exmo. Snr. Dr. Heitor Teixeira Penteado que, na mesma pasta, vai
com redobrados esforços seguindo os planos delineados pelo
Benemérito Presidente do Estado, Exmo. Sr. Dr. Washington
Luís Pereira de Souza, para o renascimento e intensificação
desse novo elemento de progresso em nosso paíz, por cujo
extraordinário serviço se impoz à estima e
à gratidão do povo brasileiro. Sendo Sua Excelência
o maior defensor das estradas de rodagem no Brasil, o seu nome será
escripto com letras de ouro, na história pátria.
Mas sejamos coherentes. Si é verdade que já fizemos
muito, parodiando Camões, é preciso accrescentar que
- por mais que se faça, muito mais nos resta por fazer; e
não nos seria lícito ficarmos estaticamente embevecidos
ante a maravilhosa obra que São Paulo apresenta, que sobremodo
nos orgulha, e que o extrangeiro admira. Precisamos evoluir, precisamos
caminhar para a frente, e caminhar com enthusiasmo, confiantes na
vitória, como faziam os guerreiros da Grécia Antiga,
por esta vereda civilizadora, até que as nossas estradas
de rodagem se estendam ou transponham à peripheria deste
vasto território, desde a sua baixada irregular, batida pelos
vagalhões do Atlântico, às margens floridentes
do caudaloso Paraná, e desde o fecundo e despovoado Valle
do Ribeira aos altaneiros picos da Serra da Mantiqueira, unindo
num só bloco o sentir paulista, num só amplexo todos
os interesses materiais de São Paulo, fazendo de seus filhos
uma só família para a sua completa felicidade.
Senhores, esta ação poderia ser um sonho pueril,
poderia até ser uma utopia extravagante, se em nossas veias
não corresse mais o sangue de nossos ancestrais, e se nesse
sangue não pullulassem mais os germens reactivos daquelles
heróes que no seio da immensa floresta, jamais temeram as
intempéries, as serpentes venenosas, as feras e, nem mesmo
aos índios cannibaes. Mas, pelo contrário, vemos e
sentimos ainda que esse nobre sangue dos impávidos conquistadores
dos selvícolas, continua enrubescendo o nosso rosto num colorido
tão puro e tão fresco, que nada nos impedirá
por tornarmo-nos dignos de suas bellas tradições que
os fastos coloniais registram carinhosamente.
Não obstante senhores, não é geral por emquanto
o empenho de construir estradas; o exemplo quasi épico de
nossos maiores não têm sido devidamente comprehendido:;
notamos ainda certo retrahimento em muitas circunscrições
municipaes, principalmente em nosso Extremo Sul Paulista, onde ellas
ainda não deram sinal de vida, em favor deste alevantado
desideratum. Há também outras que do 1º e do
2º a este Congresso, nada, ou quasi nada fizeram neste ponto,
limitando-se a algumas delas a ligeiros reparos nos caminhos que
já existiam.
É bem dura esta verdade, e por isso mesmo frizamol-a aqui
Corum populo, como uma nota inscícia do harmonioso pensar
da maioria.
Afora esta descrença, ou melhor, a este pouco amor ao bem
público, temos para embaraçar a abertura dellas em
nossa zona, vários obstáculos muito sérios,
uns de ordem concreta e outros de ordem moral; e de entre eles destacam-se
os três seguintes: - 1º a falta de recursos financeiros
das respectivas municipalidades, pois algumas dellas não
arrecadam nem o suffciente para satisfazer as suas primordiaes necessidades,
em virtude do quasi despovoamento de seus territórios; sendo
não raras vezes essa situação aggravada pelas
rivalidades políticas que entibiam sempre as mais aproveitáveis
iniciativas; - 2ºUm grande um criminoso indifferentismo pela
viação de rodagem, desconhecendo muitos a sua acção
civilizadora, sem siquer lembrarem-se de que somente ella poderá
salvar a pequena lavoura esparsa aqui e ali, sem ordem, sem méthodo,
sem cuidado e sem união, e que por isso mesmo aguça
a ambição das empresas ferroviárias; alguns
contentam-se com as pirogas inventadas em épocas remotíssimas
pelos nossos aborígenes para neste século fazer a
sua morosa locomoção... Outros julgam-se bem satisfeitos
com os chiantes carros de bois de eixos móveis, ou com as
tropas de muares arreadas dos tempos primitivos que sobem e descem
ziguezagueando sobre as montanhas, fazendo ouvir ao longe o chacoalhar
de seus guizos, num accinte grotesco e destoante; - 3º finalmente
surge aos nossos olhos a formação geológica
de nossa costa que, num rendilhado caprichoso e inerte, difficulta
a construcção de estradas; aliás, essa irregularidade
do solo paulista é peculiar a todo Brasil marítimo,
devido à Cordilheira do Paranapiacaba, base originalíssima
de vertentes que dimanam de seus contrafortes e, correndo em sentidos
opostos umas de outras, para vencer a grande differença de
nível, vão com suas cachoeiras, saltos e corredeiras
abrindo profundos e tortuosos vales, ladeando a integridade de sombrias
encostas, ante as quaes os nossos atuais sertanejos de póstos
mais avançados, sentem-se impotentes para fazer o arroteamento
de suas terras, pela certeza que têm de que os productos desse
árduo trabalho, isto é, seu milho, o seu arroz, o
seu feijão e outros cereaes terão que apodrecer nos
seus paióes, sem estradas, portanto sem vehículos
para o seu transporte aos mercados consumidores.
Tal é, pois a situação dos habitantes dos
nossos municípios do Extremo Sul Paulista; elles estão
fartos de boas terras, estão fartos de riquezas naturaes,
estão fartos de energia e coragem vivendo naquelle quasi
isolamento e estão fartos até de paciência;
mas em compensação estão faltos de vias de
comunicação, estão faltos de auxílios
de poderes públicos, estão faltos de instrucção
e de serviço sanitário, pelo que estão faltos
de conforto e do bem estar que, em conseqüência, ali
não podem existir...
Seja-nos permitido a recapitulação desta triste verdade.
Os habitantes esporádicos destes extensos e futurosos municípios
Piedade, Iguape, Xiririca, Cananéia, Una, Pilar e outros
sobre a Serra e da ertilíssima bacia do Ribeira, vegetam
espasmodicamente, na mais doce esperança de melhores dias
que nunca chegam e, assim, de geração em geração,
vão se definhando como que asphixiados pela lethargia dominante,
mirando desconsolados à magnitude da natureza ambiente, como
a anachoreta de outr'ora, num ascetismo inconsciente, aguardando
a sua resurreição; mas esse martyrio e essa fé,
não passam de contrastes irônicos, embora deslumbrantes,
que se desfazem ao menor contato da realidade, e permanecem completamente
insulados!...
Para que se possa fazer uma idéia dessa situação
precária, façamos uma ligeira comparação:
- Imaginemos alguns viajantes presos a bordo de um batel sem bússola,
sem leme e inteiramente desprovido de água potável
e de gêneros alimentícios, e que esse batel ficasse
abandonado em alto mar, a muitas milhas da costa. Esses míseros
viajantes morreriam fatalmente pela fome e pela sede, nadandoembora
nos mais ricos elementos!...
Eis o nosso caso. Ali vive um povo pacífico, ordeiro, trabalhador
e honesto; ali existem boas terras para as mais variadas culturas;
riquezas naturaes sobrepõem-se umas às outras: jazidas
de carvão, de pedra, de ferro, de ouro, de chumbo e de outros
minéreos; essências florestaes de valor incontestável;
quedas de água bastante consideráveis, e tudo isso
ali se acha no mais repulsivo esquecimento.
- Senhores Congressistas - Sirvam estas linhas preliminares como
uma invocação solene dos digníssimos representantes
das municipalidades paulistas e demais interessados aqui presentes,
para que se dignem reconhecer a nossa mais flagrante necessidade,
emprestando a ela o seu nobre espírito de solidariedade,
numa causa tão justa, ao mesmo tempo tão grata, porque
vem ao encontro de nossos recíprocos interesses, votando
a conclusão final desta memória e outras em que se
peçam ao Congresso Legislativode São Paulo as verbas
precisas para a abertura de estradas de rodagem no nosso extremo
sul, principalmente para a rectificação, nivellamento
e outras obras de arte de que carece a que vai de Sorocaba a estação
Juquiá, no município de Iguape; e por sua vez, sirva
também esta invocação de um appelo ao Exmo.
Snr. Dr. Washington Luís Pereira de Souza, para que Sua Excelência,
auxiliado pelo seu digníssimo Secretário, Exmo. Snr.
Dr. Heitor Penteado, num gesto patriótico, antes de findar
o seu honroso mandato de Supremo Magistrado de São Paulo,
faça dotar aquele nosso Canto Sulino de tão grande,
quanto indispensável melhoramento, iniciando ali o desenvolvimento
de estradas de rodagem que será o primeiro passo para o seu
progresso.
PRIMEIRA SEÇÃO
UMA CONSTRUCÇÃO QUE NÃO PO'DE SER ADIADAEm
suas linhas geraes, procuramos demonstrar na introducção
a importância e a necessidade de um estrada de rodagem ligando
o nosso planalto ao nosso littoral sulino. Nisto não trazemos
novidade nenhuma, pois que é uma aspiração
que vem dos nossos primeiros colonizadores, havendo em nosso município
vestígios indeléveis dessas primeiras tentativas;
e ainda não muito longe, em 1892, foi aberta uma estrada
que começava no bairro do Feital, deste, ia à barranca
do rio Assunguy, no município de Iguape, passando pelo Quebra
Cangalha, Serra-Negra, Várzea do Rio Verde, Serra do Alegre
e outras, com 36 quilômetros, na qual gastaram 16:000$00.
Porém essa estrada só serviu para o transporte de
uma pequena guarnição, por occasião da revolta
de 06 de setembro de 1893, e foi condemnada a desapparecer, não
só pela sua morraria, como também pelos lugares alagadiços,
entre os outros a Várzea ao Rio Verdecom 6 quilômetros,
absolutamente intransitáveis.
Mas a falta dessa via tem sido sempre o maior embaraço para
o povoamento daquele nosso sertão, e não comprehendemos
que essa falta tão grande tenha passado tantos annos sem
chamar a attenção dos poderes públicos. Entretanto
ella se torna cada vez mais premente, de modo que essa lacuna tem
que ser preenchida - mais cedo ou mais tarde. É incrível
que pessoas vizinhas moram, por assim dizer, a parede e meia, continuem
divorciadas, vivendo como estranhos que de facto o são, pedindo
intermediários para a negociação de seus productos
mais simples, quando aliás poderiam fazê-la direta
commodamente.
Exemplifiquemos: - artigos de commércio fabricados em Sorocaba
para serem consumidos em Xiririca ou Iguape, ponto médio
de distribuição, tem presentemente e forçosamente
que percorrer 491 quilômetros, pagando caríssimos fretes
e morosas baldeações. De Sorocaba a São Paulo,
111 quilômetros, com baldeação; de São
Paulo a Santos, 80 quilômetros, com baldeação;
de Santos a Juquiá 161 quilômetros,com transbordo para
via fluvial; de Juquiá a Xiririca ou a Iguape 139 quilômetros.
Além da demora e das avarias, esses artigos transitam por
estações de luxo, São Paulo e Santos, aggravando
descommunalmente o seu valor; acontecendo a mesma coisa com o arroz,
café, açúcar, aguardente e com todos os productos
daquelle lictoral: - um litro de arroz custa em Iguape 300 réis,
esse mesmo arroz nas mesmas condições vale em Sorocaba,
sendo da mesma procedência, de 900 a 100 réis por litro;
um metro de riscado custa 1200 réis em Sorocaba onde é
tecido; a mesma fazenda é vendida em qualquer negócio
de Juquiá ou Ribeira a 4000, 5000 e 6000 réis o metro.
Entretanto a estação de Juquiá fica distante
de Sorocaba, somente 125 quilômetros!...
Desde 125 quilômetros, 20 são francamente navegáveis
por vapores pelo rio Juquiá até a barra do rio Assunguy,
ficando a terra firme apenas 105 quilômetros. Ora, de Sorocaba
a Piedade, 30 quilômetros, dePiedade à Serraria, 17
quilômetros, ao todo 47 quilômetros já são
percorridos por automóveis e caminhões, restando para
construir 58 quilômetros. Deste 58, - acham-se em construção
no corrente exercício 24, ficando tão somente 24 quilômetros
para serem abertos, dos quase 27 em pleno sertão, e o restante
pelas margens dos rios Coruja e Assunguy, porém com os estudos
feitos para a sua continuação.
Como se vê, é inadiável a conclusão
desta obra, já porque faltam tão poucos quilômetros,
já porque ella será um grande factor de povoamento
das grandes bacias do Juquiá- Guassu e Ribeira, porque terá
que ser futuramente o tronco forçado estrada convergentes
ligando Itanhaém, Xiririca, Jacupiranga, Iguape, Cananéia
e outros povoamentos, cujos municípios não são
menos ricos do que muitos daqui de serras acima.
De resto, ao próprio Governo do Estado, deve interessar
bastante essa estrada, sabido como é, que orocaba é
uma das mais industriaes cidades do interior, e que Juquiá
é também o centro mais importante de correspondências
das vias terrestres e fluviais, já com um movimento animador
e que brevemente será o nosso maior entreposto do littoral,
depois de Santos; deve interessar ao Governo porque as duas vias
férreas que servem a esses dois extremos, Sorocaba e Juquiá,
são a sua propriedade, sendo também por elle subvencionada
alinha de navegação do Ribeira. Portanto, a estrada
de rodagem da qual estamos cogitando irá desenvolver vantajosamente
a agricultura, a creação, a indústria e o commércio
daquella parte de nosso Estado, contribuindo grandemente para valorisação
de suas terras, para o augmento das rendas públicas, enfim
para erguer ainda mais o já bem alto renome que elle goza
entre os demais departamentos da República.
SEGUNDA SECÇÃO AS CONDIÇÕES TÉCHINAS
DE NOSSO PLANO
Antes de transportar os pés do sagrado pórtico que,
em tão feliz momento, se abre para receber indistinctamente,
como profano, atrevo-me a observar que o levantamento dos traços
para estrada de rodagens, não é tão diffícil
como a quadratura do círculo, mas, também que não
é tão difícil como a descoberta do mel de pau;
é um dos ramos da engenharia que exigem conhecimentos especiaes,
scientíficos e topographicos, além de viagens dispendiosas,
o que ninguém consegue somente com theorias e nem aprende
na escola, e o que mais das vezes reclamam o auxílio de pessoas
leigas, porém conhecedoras praticamente de certas e determinadas
superfícies.
Pois bem, é nesta última qualidade que aqui me apresento
para reverentemente repor sobre o altar da sciência o pequeno
óbolo da minha experiência e das minhas observações
e muitos annos, como roprietário de serrarias, como lavrador,
como negociante e como investigador de nossas mattas.
Eil-o em toda a sua simplicidade:
Basta um simples relance de olhos para a carta geodésica
de nosso Estado, para verificarmos exactamente a posição
geográphica dos municípios de Sorocaba, Piedade e
Iguape, que serão atravessados pela nossa projectada estrada.
Para ella, o maior obstáculo que a primeira vista parece
existir a Serra do Mar; porém esse mole millenário
que infunde respeito ao próprio oceano, ao atravessar o nosso
município se confunde na orogenia geral, havendo até,
entre os rios Turvo e Sarapuhy, montanhas muito mais elevadas, salientando-se
entre outras o Alto do Caetezol com cerca de 1100 metros de altitude,
sendo o nosso ponto culminante e sobre o qual se desdobra a estrada
do Juquiá. Além dessa notável depressão
da cordilheira, as bacias de Juquiá e do Ribeira, que são
bem amplas, estendem os seusprincipaies affluentes para o norte,
offerecendo por esse motivo uma declividade relativamente suave;
de entre esses affluentes é o que forma o vale do rio Corujas,
tributário à margem esquerda do rio Assunguy, que
mais facilidade offerece para a abertura de estradas, porque o seu
tronco principal se acha na directriz conveniente e deflue de norte
para o sul num percurso approxima do de 36 quilômetros, dos
quais fazem 9 pelo Assunguy até a confluência deste
no rio Juquiá. A altitude média da Serra do Mar no
município de Piedade, não excede a 800 metros sobre
o nível do mar. Ora, aceitando como base essa diferença
de nível, a sua declividade para o sul, dentro dos 36 kilômetros
referidos, fica reduzido a 2,22% porcentagem esta que facilitará
a construcção de uma estrada de primeira ordem, por
outro lado, a superfície do solo ali se desdobra relativamente
favorável em seus contornos.
Quanto à primeira parte, isto é, de Sorocaba a Piedade
e a Serraria, a estrada já é regular no ponto de ista
do seu traçado, precisando unicamente de nivelamento e rctificação
para a sua real efficiência.
Em vista do exposto, achamos que os 34 quilômetros restantes
devem ser feitos com urgência, e energia, a fim de serem abertas
o mais breve possível, as communicações directas
entre os dois centros commerciaes aludidos, dando assim opportunidade
para a intensificação do intercâmbio nesses
grandes municípios visinhos.
Em abono deste objectivo que ora prende as nossas atttenções,
releve-se me lembrar aqui que, à margem direita do rio Juquiá,
no lugar chamado "Poço Grande", acha-se a pitoresca
e próspera fazenda pastoril do engenheiro Dr. Frederico S.
Land, que bem demonstra o seu espírito prático e adiantado,
introduzindo reproductores de raça e seleccionando as suas
diversas espécies de forragens. Pois bem, o distincto engenheiro
que deixou a sua rendosa profissão scientífica para
dedicar- se à indústria pastoril e à lavoura
desesperançado de obter auxílio dos poderes públicos,
tomou a si a louvável iniciativa de abrir por sua conta uma
estrada moderna para vehículos de motor à explosão,
ligando sua fazenda à estação de Juquiá;
estrada essa que servirá também para outras fazendas
e para mais de 500 moradores do Juquiá e Assunguy, tentativa
como esta, aqui no centro e no Oeste de São Paulo, não
chamaria a attenção de ninguém, é uma
conseqüência do nosso incessante evoluir; mas naquela
região interceptada por numerosos rios navegáveis
e coberta ainda na sua quase totalidade por matas virgens, é
um grande passo.
E a nossa projectada estrada, ora em vagarosa continuação,
vai atravessar exactamente essa grande área, que vai ser
um novo celleiro ao nosso proletariado. Uma vez concluída
ella, por ali transitarão os mais diferentes productos agrícolas,
pastoris e industriaes, fazendo-se a sua mais franca, proveitosa
e directa permutação: nós lá iremos
procurar o gado, o arroz, o assúcar, madeira e outros productos;
e osseus moradores, por sua vez, virão se abastecer em Piedade
e Sorocaba, de tecidos diversos, chapéus, calçados,
ferragens e outros artefactos aqui fabricados ou importados; e isto
sem contar com a socialisação de seus costumes, de
seus hábitos e de suas famílias, que sobejamente recompensarão
quaesquer sacrifícios para que tal fim forem feitos.
Além desse lado verdadeiramente prático, real, proveitoso
e patriótico, a nossa estrada tornar-se-á também
um centro de convergência de touristes, de sportmen, de operadores
de films cinematográphicos, de scientistas e curiosos, que
para lá seguirão para gozar, desfructar, estudar e
explorar os maravilhosos thesouros e as bellezas empolgantes que
a natureza patenteia em sua plenitude: extensas várzeas,
atravéz das quaes os rios se deslizam caprichosamente, formando
poéticas curvas, em que as águas se quebram rebojando;
encostas encantadoras, onde se destacam com imponência os
troncos seculares dafigueira, do guararema, do araribá, do
cedro e de mil outras essências; suas cachoeiras e saltos,
cujas águas quebram-se nos rochedos e penedias, como que
num fremir ardente, desafiando a sciência para o seu aproveitamento;
emfim, a tudo isso se reúnem as silhuetas variegadas das
collinas, outeiros e picos das montanhas revestidas do mais esmeraldino
lençol dessa vegetação luxuriante, formando
um conjunto estupendamente attrahente, um panorama delicioso, enfim,
um dos recantos mais bellos do mundo.
E toda essa variadíssima e espontânea demonstração
natural de nossa terra, não será digna de figurar
no quadro majestoso que S. Paulo orgulhosamente antepõe aos
olhos de seus visitantes?...
Certamente que sim.
Accresce mais que, além dessa utilidade preponderante, esta
grande rodovia poderá ser também uma estrada estratégica
de não pequena importância, por ficar em communicação
directa com os principais troncos de viação, tanto
no litoral, como no interior, para receber, concentrar ou fazer
a destribuição de tropas e materiaies béllicos;
ali pelas linhas de Santos a Juquiá e de navegação
do Ribeira; e aqui pela Sorocabana que se corresponde directa e
indirectamente com o sul do paíz, com a capital e com o oeste
do Estado e com a Capital da República, servidos simultaneamente
por todas as vias de transporte conhecidas; reunindo mais a circunstância
de ficar próximo de Sorocaba à grande jazida de ferro
e aço do Ipanema, que mais dia, menos dia, o Governo Federal
terá que por em actividade, para preparar a defesa nacional
bem conhecemos que o espírito do povo brasileiro, embora
saiba reagir, é todo pacifista. Todavia, isso não
é motivo bastante plausível para que fiquemos a dormir
sésta assim tão despreoccupadamente, como os antigos
beduínos em suas tendas. Não desejamos, não
queremos a guerra, por conhecêl-a ser a expressão mais
torpe, mais horripillante do sentir humano; mas isso de modo algum
justifica a nossa gnorância, o nosso descaso pela psychologia
preventiva das grandes potências que nas Conferências
da Paz e nas reuniões da Liga das Nações, pela
voz de seus emissários apregoam ephaticamente a limitação
de armamentos, enquanto vão duplicando as suas esquadras
e multiplicando seus exércitos e as suas esquadrilhas de
avião, dizendo lacônica e sarcasticamente: queremos
a paz armada!...
Suprema ironia!!...
Si assim é, cumpre também a nós brasileiros
irmos apparelhando terreno dentro do limite do possível;
e no número desses apparelhos ou factores de defesa nacional
estão as estradas de rodagem estratégicas. De resto,
quando da revolta de 06 de setembro de 1893, já nós
tivemos que guarnecer aquella nossa fronteira paulista, temendo
por ali a invasão dos revoltosos. Facto este ainda bem recente,
que sabemos não só pelas chrônicas da época,
como ainda pelo testemunho pessoal de muita gente que ainda vive,
inclusive o autor desta memória que também fez parte
do movimento defensivo. Donde se vê que não estou luctando
contra moinhos de vento, e nem estou figurando hypótheses
banaes, sem factos justificativos.
Em resumo, pode-se concluir que este último ponto deve interessar
muito ao Estado inteiro; convém para o sossego e tranqüillidade
do povo paulista; é indispensável para o amparo de
suas famílias e para a garantia de seus bens, mormente que
sabemos que os portos de Iguape e Cananéia não tem
fortificação alguma, e que estão abertos exactamente
nas embocaduras de muitos rios e canaes navegáveis que facilitam
o accesso a intrujões que, num dado momento nos poderão
pôr em sobressaltos. Para que não tenhamos que lamentar
a nossa incúria ou a nossa imprevidência, mas à
obra.
QUARTA SECÇÃO A VIAÇÃO DE RODAGEM EM
PIEDADE
Tocamos enfim ao ponto mais sensível do nosso objectivo.
Por conseguinte, com o beneplácito desta illustre convenção,
vamos falar particularmente ao nosso respeito.
Senhores Congressistas: - A Câmara Municipal de Piedade,
foi uma das primeiras que, em São Paulo, cogitaram do problema
do transporte de mercadorias e passageiros por vehículos
de tracção mecânica, com o apparecimento dos
actuaes propulsores, gzsolina e seus congêneres, tentando
a sua ligação com Sorocaba por uma linha de automóveis.
Para tal fim e com grande sacrifício de suas rendas, ella
mandou reconstruir a estrada existente e fazer uma variante na Serra
de São Francisco, extremo dos dois municípios, cuja
variante e reconstrução custarão nada menos
de 54:036$730, sendo 43:628$000, por conta do Governo do Estado
e 10:408$730por conta da municipalidade. E isto ocorreu-se em 1907
quando a sua receita era orçada apenas em 8:000$000. Vê-se
que ela fez um sacrifício ingente, gastando muito menos do
que arrecadava, para beneficiar o público. Mesmo em 1913,
seis annos depois, ainda a sua receita era calculada em 11:500$000.
Não obstante o tempo decorrido, essa variante continua ser
o melhor trecho da nossa estrada, apesar do mau estado em que se
acha.
Posto que esses 4 quilômetros fossem bem feitos, com vários
cortes em rocha viva, com grandes paredões de arrimo, aterros
e boeiros de certa importância precisamos confessar que o
restante ficou bem longe do soffrível em suas condições
téchnicas: - raio curtíssimo em várias curvas,
rampas com porcentagem de até 15% até de mais de alguns
pontos; péssimo escoamento das águas pluviaes, sobressahindo
o enorme inconveniente de algumas de suas rcstas terem sido traçadas
nas rampas mais fortes, resultando disso acanalização
das enxurradas pelos sulcos dos carros que inexoravelmente foram
destruindo o seu leito e difficultando a sua conservação.
Depois deste não previsto contratempo, outros embaraços
não menos sérios sobrevieram: - a raridade que havia
de chauffeurs habilitados, bem como a de depósito de gazolina
e accessórios que, de mais a mais ainda custavam muito dinheiro;
por outro lado, os modernos vheículos careciam de vários
aperfeiçoamentos, de que mesmo hoje com todo o prodígio
do seu mecanismo ainda não estão completamente isentos.
E naquella occasião tudo estava no terreno das experiências,
por cujos motivos a nossa Câmara pôz de banda essa pretensão
embora tivesse já legislado nesse sentido, em que se concedia
uma subvenção de 6:000$000 anualmente; e pôz
de banda para não comprometer as suas finanças futuras
que eram e ainda são exíguas, numa empresa problemática
e que fracassaria fatalmente; no que ella ndou muito bem.
Em conseqüência a estrada foi entregue ao tráfego
público de tropas e vehículos communs, carroções
e carros de bois que a inutilizaram quasi que completamente; e nem
podia ser de outra forma como se vai ver: por ella além dos
que fazem a importação e a exportação
de nosso município, vemos diariamente centenares de carroções
e carros de bois que transportam cereaes e lenha para o mercado
e para as diversas fábricas de Sorocaba e do Votorantim,
e também para os grandes fornos de cal do Itupararanga. Devido
ao trânsito contínuo de numerosos vehículos
de aros metállicos tendo unicamente 3, 4 e 5 centímetros
de largura, suportando 1000, 1500 e até 2000 quilos, o seu
leito não se manteve normalizado. Em vista do que, um Ford
gasta sempre duas horas para ir de Sorocaba a Piedade, e vice-versa,
e isto quando os Santos estão de bom humor; em caso contrário,
são os demônios que se divertem às custas dospobres
passageiros!... E de uma cidade à outra só tem 30
quilômetros; um bom cavalo faz essa marcha em igual tempo.
É irrisório.
Já na outra estradinha de Piedade à Juquiá,
no seu 1º trecho construído, o mesmo Ford vence mais
um quilômetro por minuto em viagem regular, apesar de ainda
ella não ter permanente conserva; é que por ella não
trafegam os malfadados carros de eixo móveis e carroções
de aros estreitos. Verdade seja que naquella parte o rolamento estradal
está melhor disposto, a sua construcção foi
mais conforme ao fim a que se destina como diante se verá.
De 1920 pra cá, nossa Câmara vêm se empenhando
outra vez pelo magno problema de que ora nós nos occupamos,
não só reconsertando as estradas antigas, como abrindo
outras. A que vai ao Juquiá é uma das que mais a preocupa
e que vai sendo aberta com auxílios do Governo do Estado,
para o que muito temcontribuído os bons offícios do
nosso operoso representante ao Congresso Legislativo, pelo 4º
Distrito, o Exmo. Sr. Dr. Luiz Pereira de Campos Vergueiro, que
por essa nobre e patriótica dedicação tornou-se
credor de nossa estima e gratidão.
Os primeiros 17 quilômetros dessa via, foram feitos com os
seguintes detalhes: - raio mínimo de curva 50 metros; largura
do leito 5 metros; porcentagem máxima 8%, regularmente abaulado.
Em 1922 a Câmara perdeu a verba autorizada para sua continuação
naquelle exercício, por ser ella absolutamente insuficiente
para construir 20 quilômetros nas mesmas condições
do 1º trecho; essa verba era de 18:000$000, dos quaes deviam
sair 3:000$000 para duas pontes, reduzindo-se a 750$000 por quilômetro,
pelo que era humanamente impossível acceitar o contracto,
em vista do elevado preço de mão de obra, de gêneros
alimentícios e ferramentas.Comtudo a nossa edilidade vai
proseguindo agora nessa constrcução, tendo um novo
orçamento mais compatível com a natureza desses trabalhos.
Esse 2º trecho deverá ser melhorado em annos posteriores
conforme as dotações que foram consignadas para esse
fim. Porém, o seu traçado vai sendo já definitivamente
locado pelo rumo mais favorável e conveniente, raio mínimo
de 50 metros, porcentagem mínima 7%, sendo em geral de 2,3
e 4%, conforme temos verificado na abertura das picadas, e vai seguindo
as mesmas linhas dos projetos discutidos e aprovados nos Congressos
de Estradas de 1917 e 1919.
Entendemos que este emprehendimento não deverá ser
interrompido, não só por motivos econômicos,
como também para incrementar a riqueza pública e tornar
conhecida aquella vasta e esperançosa região, que
às portas desta grande capital traz como que escondidos vários
afluentes do Juquiá e Ribeira que nãofiguram por enquanto
na planta geográfica de São Paulo, tendo alguns deles
4,5 e 6 m³ de água por segundo, como o Juquiá-
mirim, Travessão e Corujas.
A nossa via em questão, uma vez concluída, poderá
ser trafegada em todos os meses do anno, sem interrupção,
vista que não ficará sujeita a inundações
e nem passar por ligares alagadiços, e ser aberta por terreno
consistente, recebendo em seus rolamentos raios solares, garantindo
assim a sua conservação.
Mas, para a sessão de Piedade a Sorocaba julgamos convincente
o alargamento e desdobramento do seu leito, formando duas vias parallelas,
uma para tropas e vehiculos comuns, e outra exclusivamente para
automóveis e similhantes Feito isto, ficaremos a 20 minutos
de Sorocaba e poderemos vir cedo à esta capital tratar de
negócios ou a passeio e voltarmos no mesmo dia.
Da mesma forma, nos domingos e feriados os commerciantes, industriaes,
funcionários públicos e perários poderão
ir à Piedade, e mesmo ao Sertão apreciar os segredos
da floresta, a sua linda architectura geológica e outros
phenômenos da Creação, e não faltarem
nos dias immediatos aos seus misteres.
De Juquiá a nossa estrada poderá ser prolongada até
Itanhaém, passando por Prainha e outras estações.
Então teremos um circuito dos mais bellos e interessantes
pela variedade de suas paizagens verdadeiramente chromáticas
e cheias de lances imprevistos, como é fácil imaginar.
O touriste gozará no mesmo dia a brisa dos aprazíveis
campos do planalto, as fragrâncias das mattas virgens da Serra,
os murmúrios de caudalosos rios, os vagalhões surrantes
do mar, o vai e vem de nosso maior empório internacional,
que é Santos, e o bulício insurdecente desta grande
urbes que nos enche de orgulho, que nos estimula para o trabalho,
que é este - extraordinário São Paulo.Senhores
Congressistas, para que tudo isto se realize fica dependendo unicamente
de uma vara mágica, como a de Moysés, que ferindo
o rochedo colossal, que é o erário do Estado, delle
faça verter as verbas necessárias; e essa vara vos
a tendes, é o vosso patriotismo, a vossa boa vontade, que
a posteridade abençoará.
QUINTA SECÇÃO
GERAL CONCLUSÃO DA MEMÓRIA
Ao lançar o ponto final nesta longa exposição,
devo acrescentar que, quer como simples particular, quer como detentor
de alguma parcella da administração pública,
tendo sido sempre perseverante no propósito de cooperar para
o progresso do meu município e do todo o Sul de São
Paulo. O meu enthusiasmo por este deal nunca se arrefeceu, pelo
contrário vai crescendo à proporção
que os annos passam e que geralmente nos deixam proveitosos ensinamentos.
Foi um elemento ignoto que me impellira para essa majestosa Convenção
Rodoviária, trazendo o meu despretensioso concurso, que não
prima, estou certo, pela sua forma litterária, mas que provará
a minha boa vontade em ser útil á minha terra, convencido
também de, assim procedendo, cumprir um dever de paulista.
Todo nós sabemos que o objectivo que ora congrega o nosso
pensamento, é uma questão sem questões; uma
cidade sem luz eléctrica, sem hygiene, sem estradas, sem
automóveis, não é uma cidade digna desse nome,
é um ermo.
E si hoje a estrada já faz parte do programma de administração
dos Governos bem organizados, é porque a sua efficácia
está reconhecida no mundo inteiro; e se nos centros populosos
e servidos por outras vias de communicação, ella muito
contribui para a riqueza e para a commodidade do público,
é indubitável que ella avançando para a faixa
litorânea de nosso progressivo território, torna- se-à
uma avalanca poderosa, transformando radicalmente as suas velhas
uzanças, substituindo-as pelo aconchego de novos meios de
vida que afugentarão dali a ignorância de nosso quasi
desconhecidos lavradores, que eliminarão do seu seio a indolência,
a malária e a miséria que fazem funestas companhias
aquelles nossos irmãos, collocando em seu lugar a civilização,
machuinismos, facilidade de locomoção, confortos,
enfim, agentes novos que saberão tirar proveito dos inexgottáveis
thesouros que se acham escondidos naquelle colossal thalweg, ingratamente
alcunhado por SERTÃO de Iguape, citado, com certo horror,
como se elle estivesse no continente africano, ou como se fosse
ossaria anti- diluviana!...É demais?!...
Senhores, se as idéias emittidas nesta memória forem
acolhidas pelo pronunciamento approbativo dos nobres congressistas
presentes, dar-me-ei por generosamente pago do esforço dispendido.
CELESTINO AMÉRICO
Subscrevo em suas linhas a presente memória.
São Paulo, 12 de outubro de 1923.
LAUREANO DA SILVEIRA BALDY
Prefeito Municipal de Piedade "
CONCLUSÃO
Consubstanciando o fim desta memória, o Terceiro Congresso
Paulista de Estradas de Rodagem, reunidoem São Paulo, no
dia 12 de outubro de 1923, reconhece a importância e a necessidade
de uma estrada de rodagem, com todos os detalhes téchnicos
previstos em lei, ligando Sorocaba a estação da via
férrea em Juquiá, passando por Piedade
Porque ella ligará duas grandes regiões de costumes,
climas e producções differentes;
Porque unirá dois centros commerciaes e industriosos relativamente
importantes;
Porque atravessará uma grande zona ainda completamente despovoada;
Porque ela será um tronco para as futuras ligações
para: - Itanhaen, Xiririca, Jacupiranga, Iguape, Cananéa
e outros povoados de Ribeira e do Juquiá;
Finalmente, porque, sendo o traçado mais curto, por ella
serão feitas as communicações directas daquella
parte do nosso litoral, com o interior e com a Capital do Estado.São
Paulo, 12 de outubro de 1923.
CELESTINO AMÉRICO
Laureano da Silveira Baldy
Prefeito Municipal de Piedade
PARECER DA COMISSÃO ESTADUAL DE ESTRADAS DE RODAGEM SÕBRE
O MEMORIAL DO SR.CELESTINO AMERICO.
Tomando em consideração a pequena kilometragem e
a relativa facilidade de construcção de uma estrada
de rodagem de piedade a estação de juquiá (município
de Iguape);
Tomando em consideração os grandes benefícios
que desta advirão para o Estado em consequência do
aproveitamento de uma região ubérrima, mas hoje quasi
despovoada;Tomando em consideração a exiguidade dos
recursos orçamentários das Camaras interessadas;
Sou de parecer que a Commissão de Estudos;
Approve a conclusão do autor apenas com uma retricção
reletiva ao trecho de Sorocaba a Piedade por já existir uma
estrada e por pertencer o tal trecho ao plano de viação
da Directoria de Obras públicas da Secretaria da Agricultura;
Approve para a publicidade o memorial do Sr.Celestrino Américo
Encaminhe o dito trabalho para a Commissão de Recursos deste
Congresso afim de que ao Legislativo sejam levadas as solicitações
da Câmara de Piedade,que constituem uma justa aspiração
daquella localidade e dos povoados da Ribeira e do Juquiá.
Sala das sessões da Commissão de Estudos do 3 Congresso
de Estradas de RodagemS.Paulo, l5 de Outubro de 1.923
INÍCIO DO POVOADO
Agora já estamos no dia 15 de julho de 1930, ocasião
em que Celestino Américo, em companhia de Celso David do
Valle, adentrou os sertões afim de contratar a medição
de terras da família do Coronel João Rosa, de quem
era parente, para vendê-las em glebas com a finalidade da
agricultura.
Percorrendo as florestas, na tarde do mesmo dia, pararam em um
ponto elevado entre dois braços de rios(Onças e Palmital),
para discutir pormenores do contrato a ser assinado.
Após o acordo, Celestino Américo tirou da cinta o
seu inseparável facão (instrumento indispensável
nas caminhadas pelo mato), com ele cortou uma estaca, e fincando-a
no chão disse ao seu companheiro: " Dr. Valle, aqui
será a sede da futura povoação, isto porque
daqui sairão as ramificações para os rios Verde,
Corujas, Alecrim e Juquiá-Guaçú."
Esse local e o ponto de divisa do Hotel do Tutu com o terreno da
Igreja Católica na rua Alcides David do Valle..
Retornaram a Piedade,onde foi firmado o contrato destinado a concretizar
os desejos da família Rosa,contrato esse que se acha registrado
no Livro 23 folhas 31 a 47 do segundo Tabelião de Notas daquela
cidade e que em suas cláusulas 34 e 35 respectivamente estabelecem
o seguinte:Cláusula 34
os proprietários reservarão dez hectares do terreno
para fundação e patrimônio de uma povoação
na bacia do Ribeirão das Onças, e mais uma cachoeira
do braço da esquerda do dito ribeirão para o futuro
abastecimento de água a essa povoação do patrimônio
o engenheiro levantará uma planta bem detalhada dividindo-o
em lotes de dez por quarenta metros com estacamento número
a óleo deixando uma área central para um largo e construção
de uma igreja. Esses lotes do patrimônio serão pelos
proprietários doados gratuitamente aos interessados que se
comprometerem neles a construir casa nos dois primeiros anos a contar
da data desta escritura depois deste prazo os lotes serão
vendidos e o produto será reservado para o fim de fazer a
instalação de água;o engenheiro no contrato
de venda que fizer das terras nas duas margens da citada cachôeirinha
reservará a servidão da mesma para o abastecimento
acima aludido.
Cláusula 35
A nova povoação se denominará ´"Paranapiacaba"
em virtude de ficar localizada em um taboleiro entre os contrafortes
da '" cordilheira marítima ".
Em setembro de 1.930 o Dr.Celso construiu o primeiro rancho de
pau a pique no Patrimônio do Paranapiacaba no local onde está
erguida hoje a igreja católica
Apesar da precariedade dos caminhos de então no dia 13 de
janeiro de 1.931 o Dr.Celso chegava com um veículo "
Cadillac" lotado de mercador ias até a sede do Patrimônio.
Em 10 de novembro de l.932 reuniram-se os engenheiros Celso David
do Valle, José Kenitz Moreira Lima, Royal Maravalhas e Valdomiro
Valle, formando uma sociedade comercial com a denominação
"Moreira eCia Ltda". para locarem a estrada de Piedade
a Juquiá, com o capitalde CR$ 10.000.00(Dez Mil Cruzeiros)
assim como também um longo trecho faltante de Piedade ao
Patrimônio do Paranapiacaba.
Em 1.934 iniciou-se a colonização com a formação
da "Companhia Agrária Paulista" sendo aberto cêrca
de Setenta quilometros de estradas vicinais,entre elas as que servem
aos atuais bairros do Rio Verde Travessão Juquiázinho
e Colônia do Chá (antigo Nagasaki)
1935 - O PRIMEIRO COMÉRCIO E A CHEGADA DOS JAPONESES
Nesse ano surgiram as duas primeiras casas comerciais no Patrimônio
do Paranapiacaba de propriedade dos senhores Joaquim dos Reis Delgado
e em seguida do Senhor Seigo Hirata.Nesse ano chegou um grupo de
famílias japonesas, que foram Kanta Kubota, Kenichi Matsumura,
Sadaji Sato, Seigo Hirata e Tiba.
A intenção dos nipônicos era desbravar os sertões
para propiciar o plantio der lavouras pois viam nessa imensidão
de terras a realização de seus sonhos de agricultores
sonho esse que os haviam trazidos do outro lado do mundo.
Mas após inúmeras tentativas não conseguiam
atingir a sua meta pois não conseguiam efetuar a limpeza
das terras pois era impossível queimar as matas que eram
derrubadas pela falta de sol uma vez que chovia quase todos os dias.
No meio deles, havia uma pessoa que havia feito carvão vegetal
através de fornos feito em buracos no barranco e coberto
com terra batida, onde morava em Hokaido no Japão, e assim
inauguraram uma nova tividade em pleno sertão e com isso
puderam limpar as terras para o plantio.
Com o tempo essa atividade passou a ser explorada pelos moradores
antigos do local que viam no imediatismo desse lavor mais vantagens
do que esperar tanto tempo pela colheita e assim passaram os japoneses
a usar para o plantio as terras que eram desmatadas pelos colonos
locais.
Essa atividade perdura em parte ate hoje embora só com madeiras
de reflorestamento de eucaliptos
Um grupo de cinco japoneses sendo as famílias Kubota, Matsumura,
Sato, Hirata e Tiba (embora as duas ultimas não sejam estas
existentes hoje no município), resolveram firmar um pacto
entre si que deveria ser cumprido acima de qualquer circunstancias
e elaboraram uma carta de intenções para fazerem deste
recanto do Brasil uma "pátria" onde pudessem criar
e instruir os seus filhos para poderem participar de uma vida social
e comercial em igualdade com os brasileiros. ,e não deixarem
este local por maior que ossem os sacrifícios encontrados.
Restam ainda duas dessas famílias no município, Matsumura
e Kubota..
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1938 - ELEVAÇÃO A CATEGORIA DE DISTRITO DE PAZ.
No dia 30 de novembro de 1.938 o engenheiro Celso David do Valle
e o Coronel Moreira Lima encabeçaram um movimento e conseguiram
elevar o patrimônio a categoria de Distrito de Paz com o nome
de Santa Catarina através do Decreto Estadual 9.775.
No mesmo ano no dia 25 de novembro foi inaugurada com a presença
do bispo diocesano de Sorocaba Dom José Carlos Aguirre a
capela de Santa Catarina construída toda de madeira por um
grupo de católicos ncabeçados pelo senhor Ambrósio
Régis.
O primeiro Sub-Prefeito de Tapiraí foi o senhor Raul Leite
de Magalhães e governou de 01.01.1939 até 03.01.1945.
1944 - MUDANÇA DO NOME PARA TAPIRAÍ.
No dia 30 de Novembro de 1.944,por imposição de Lei
Federal que proibia o nome de Estado para municípios o nome
de Santa Catarina nâo poderia permanecer
Os responsáveis pelo Distrito queriam lhe dar o nome de
Itupararanga mas como havia controvérsias procuravam por
um nome mais adequado até que Celso Valle que era amigo pessoal
do Presidente GetúlioVargas pediu a ele uma opinião
e após ser indagado qual o animal diferente que havia no
Distrito foi informado ter por aqui uma grande quantidade de antas
em vários rios existentes, ao que o Presidente Getúlio
opinou está aí o nome ,Tapiraí ou seja "Rio
da Anta".,e pelo Decreto -Lei de número 14.334 foi oficializado
o nome TAPIRAÍ passando a vigorar a partir de 01de Janeiro
de 1.945
1954 - INÍCIO DA CAMPANHA PRÓ-EMANCIPAÇÃO
No dia 29 de Março de 1.954 na ocasião em que foi
inaugurada a igreja de Santa Catarina um grupo de cidadãos
Tapiraienses reuniram-se para iniciar uma campanha pró emancipação
do Distrito, que pertencia ao município de Piedade.
Encabeçados por Ambrósio Régis a comissão
teve a partioipação dos senhores; José de Moura
Glásser, Kameki Sato, Armando Simões Grazina, Benedito
Messias, Shizuma Aoki, Abílio Simões, Antônio
Vitorinodo Santos, Júlio Alberto Macieira, Antônio
Víctor de Oliveira, Lázaro Soares de Campos e Rikío
Osawa.
Por terem escolhido como patrono dessa causa o Deputado Juvenal
Lino de Mattos que era amigo de Piedade tiveram os sonhos de emancipação
vindo por terra, assim prorrogando por mais quatro anos essa aspiração
mais do que justa dos tapiraienses.
1958 - O PLEBISCITO DE EMANCIPAÇÃO
No dia 28 de Dezembro de 1.958,realizou-se o plebiscito pró-emancipação
com a presença de 94 dos 103 eleitores inscritos tendo sido
aprovado o mesmo por 93 a 01.
Tendo o deputado Leôncio Ferraz Júnior encampado a
causa tapiraiense a Assembléia Legislativa do Estado dessa
vês aprovou a criação do município o
que foi oficializado pela lei 5.285 de 19.02.59.
As divisas foram firmadas desmembrando Tapiraí de Piedade
Juquiá e São Miguel Arcanjo. Fazendo ivisas também
com Ibiúna, Miracatu, Sete Barras e Pilar do Sul. Numa extensão
territorial de 812 quilômetros quadrados.